"It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes."

23
Ago 09

Deolinda, bem alto.

 

olho em frente: na minha varanda, o Hibisco abriu duas das suas flores e agita levemente as suas pétalas com o vento norte. ao fundo, no mar, passa um barco de quando em vez. a minha Alice brinca com as folhas das Gardénias e inventa insectos que persegue incessantemente pelo ar.

 

 

ontem, fiquei parada à porta enquanto eles se iam embora. acenei enquanto a porta do elevador se fechava entre mim e as nossas gargalhadas. sentei-me um minuto no sofá, mas um toque no telemóvel recordou-me que o segurança tranca as portas todas às 11 da noite. saltei para o elevador com o meu enorme porta-chaves e aterrei no rés-do-chão, antes de eles terem tempo para decidir se era boa ideia esconderem-se todos nas escadas para me pregarem um susto. abri a porta com a chave, acenei mais uma vez. subi pelo elevador, corri para o meu quarto, abri a janela e fiquei debruçada na noite, a ver-vos partir. um casal para  um carro, outro para o outro, uma troca que palavras que não percebo à distância, uma palmada no ombro, alguns pares de beijos, um aperto de mão. o vrumm-vrumm dos motores e depois só a noite e o meu mar. e, subitamente, atinge-me: o significado tremendo de amizades que duram há 17 e 12 anos. diacho. como eu gosto de vocês. até sou capaz de, por causa disso, mudar aquela fotografia que está na minha estante e que vocês teimam que é horrível, que eu sou a única que fiquei bem. ou então não. vou-vos contar um segredo: o que eu mais gosto naquela fotografia são as cores amareladas, gastas, comidas pelo sol. são os anos que passaram por ela enquanto nós crescíamos.

 

bebo o café aos golinhos pequeninos, como eu gosto de o beber. o telemóvel toca: ouço a voz* dos meus pais, perdidos de riso, depois de ouvirem o Dartacão que eu lhes enfiei no cd que fiz para lhes acompanhar as férias. Dartacão (Dartacão-Dartacão-cor-ren-do-gran-des-p'ri-gos), entre Dave Matthews e Deolinda. não tenho juízo, eu. e eles riem-se, os malucos.

 

mais logo, vou jantar com o meu irmão e a minha cunhada. depois de mais logo, vou com o meu irmão ver o primeiro jogo do nosso Porto no Dragom.

 

alguém me liga só para me dizer que tem saudades minhas.

 

 

 

eu olho a minha tese, em cima da mesa de trabalho. e, pela primeira vez desde que a entreguei, sinto uma espécie de alívio, uma alegria própria de quem está prestes a encerrar um ciclo.

e sorrio, sozinha.

se perguntarem por mim, digam que estou feliz.

 

* não é um erro: os meus pais são dois, mas falam a uma só voz.

rabiscado por catarina às 14:28
sinto-me:
música: Deolinda - Clandestino

17
Jul 09

o desafio é da Marta.

a ideia é reviver [enumerar, falar, enfeitar, sei lá, partilhar] 5 momentos da minha vida que tenham passado em câmara lenta.

então.

vamos.

lá.

 

1. a primeira vez que aterrei no meu cantinho escondido no norte da suécia. era março [ou seria já abril?], caía uma neve ventosa, muito abandonada, e eu achei que nunca tinha tido tanto frio na minha vida. para onde quer que eu olhasse, só via floresta. as poucas pessoas que viajavam naquele avião comigo já tinham ido para dentro do aeroporto. e eu fiquei sozinha, no meio da pista, com a neve a dançar no meu cabelo e a sentir-me absolutamente só, derrotada, incapaz. e achei que nunca tinha tido tanto medo na vida. e não imaginava - eu, que era tão pequena ainda, tão criança - que um dia sairia daquele aeroporto de lágrimas nos olhos, com a saudade dobrada às avessas. foi há pouco mais de 4 anos. parece que foi ontem. parece que passou uma eternidade. ou, às tantas, passou mesmo uma Eternidade.

 

2. todas as vezes que aterro sobre o meu Porto d'abrigo. [e ver-te ao longe, cidade, sentir-te tão Intensa no pulsar do meu coração. adivinhar-te as formas, antecipar-te as gentes, saber que mudaste, saber que és a mesma. perceber a tua Luz ainda que seja noite cerrada, sorrir às tuas sombras que são assim uma espécie de existires em mim. sossegar no teu Imenso granito e sentir que estou em casa. que estou em nós. fazes-me falta, sabias? fazes-me tanta falta quando estou longe de ti.]

 

3. uma noite bonita no início de agosto. uma sms a entrar no meu telemóvel: olhei para o céu e estava mais azul. terá chegado, perguntei-me?

 

4. aqueles 15 minutos.

 

5. a primeira vez que vi o meu irmão subir a um palco e cantar um fado de coimbra. diacho, todas as vezes que ouço o meu irmão a cantar fado de coimbra.

 


 

rabiscado por catarina às 23:52
sinto-me: longe.

15
Jul 09
  • acabar a tese;
  • escrever projecto post-doc;
  • defender a tese;
  • limpar a casa;
  • escovar a alice;

[agora que penso nisso, o melhor é trocar a ordem dos dois pontos anteriores... a desgraçada da felina anda-me a largar pêlo como se não houvesse amanhã.]

  • plantar uma árvore;
  • ter um filho;
  • eu disse um? queria dizer uma equipa de futebol - de filhos, claro está;
  • ser feliz para sempre;
  • cultivar as minhas próprias ervas aromáticas;
  • conhecer o Lucho e convencê-lo a voltar para o fêcêpê;
  • fazer um curso de culinária;
  • fazer um ano de trabalho voluntário em áfrica;
  • percorrer a europa de fio a pavio;
  • inscrever-me num ginásio e aguentar essa inscrição por um período recorde de 6 meses - inteiros;
  • ganhar o euromilhões e comprar o conteúdo de uma fnac inteirinha só para mim;
  • fazer um curso de fotografia;
  • praticar yoga regularmente;
  • aprender a cantar;

[e nisto salta a criancinha insolente que vive dentro de mim: não te estás a esquecer de nada? não, criatura. eu não me esqueço dos meus sonhos infantis de salvar o mundo. o único problema é que, nos dias que correm, não tenho grande tempo para dormir.]

 

rabiscado por catarina às 16:49
sinto-me: puuuuuf!
música: I've got a crush in you - Stacey Kent

já procurei outra explicação. já puxei pelo neurónio diurno e pelo neurónio nocturno. já levantei dados, desenhei experiências e rebati hipóteses científicas. mas a verdade é só uma: eles puseram o meu telefone sob escuta. e o meu telemóvel também. subornaram os meus colegas, amigos e familiares em troca de informações, e puseram um aparelhómetro localizador no meu katemobile. compraram um lugar no dragon ao lado do meu e sentam-se atrás de mim quando eu vou tomar café.

 

de acordo. nem me chateia por aí adiante que se tenham baseado na minha vida para criar uma banda desenhada. podiam era ter dito qualquer coisa antes...

 

 

PS: e eis que, ao sétimo dia de gloriosa resistência, o TóBisha  aterrou. assim sem nada que o fizesse prever, demorou 10 minutos a guardar um .docx com 16 páginas. portei-me bem e não o insultei. pelo contrário: fiz-lhe muitas festinhas e prometi-lhe formatação em setembro. lá se comoveu com o meu desespero e resolveu funcionar. pelo sim, pelo não, não vou exigir mais nada dele hoje e vou-lhe dar o resto da noite de folga. isto, claro, depois de ter feito as minhas cópias de segurança. e as cópias de segurança das cópias de segurança. e as cópias de segurança das cópias de segurança das cópias de segurança. e as...

 

rabiscado por catarina às 02:28
sinto-me: puflas!

13
Jul 09

então, mas...

 

 

... agora já não se pode dormir nesta casa, é isso?

 

rabiscado por catarina às 23:23
sinto-me: puuf.
música: Joni Mitchell - River

11
Jul 09

isto passou-se a semana passada. ia eu a caminhar pelo corredor do laboratório quando ouvi alguém chamar por mim.

 

ela: olá! epá... estás a sentir-te bem?

teco, o meu neurónio diurno: mau, mau...

eu: olá! estou, porquê?

 

ela: de certeza?

teco, o meu neurónio diurno: lá vamos nós outra vez...

eu: sim... talvez esteja um pouco cansada, mas nada de especial.

 

ela: não terás apanhado nada lá na tua viagem à suécia?

teco, o meu neurónio diurno: ronc, ronc!

eu: não me parece... mas estou assim com tão mau aspecto?

 

ela: estás! ah, já sei, estás a escrever a tese, não é?

teco, o meu neurónio diurno: bruxo!

eu: pois. já sabes o quê?

 

ela: já sei porque tens mau aspecto. tens aspecto de quem está a escrever uma tese.

teco, o meu neurónio diurno: e se fosses lamber maçanetas para um aeroporto internacional, também não era boa ideia?(*)

eu: ah. ok. bem, tenho que ir ali revelar esta membrana...

 

e foi assim que eu decidi transformar-me numa ursa polar(**) e hibernar até passar o mau tempo. ou melhor, o mau aspecto. ou melhor, a escrita. primeiro da tese, depois do projecto. vão ser dois longos meses, meu amigos... para vocês, essencialmente. sim, porque já que eu não me levanto da frente do TóBisha, vocês vão ter que levar comigo a horas e a desoras. agora desunhem-se!

 

(*) não, eu não tenho mau feitio. eu até sou uma pessoa muito doce. o resto da humanidade é que tem a mania de ser irritante.

 

(**) diz que os ursos só atacam quando têm fome. que é coisa que eu nem consigo ter ultimamente. mas se eu fosse a vocês, não arriscava. depois não digam que eu não avisei.

rabiscado por catarina às 22:41
sinto-me: puf-puf-PUF!

10
Jul 09

 

[vista daqui até parece sossegada, não é? com a caudinha enroladinha à volta das patinhas, tão paniiiiiiiiiiiisgas. pela forma como dorme, dir-se-ia que nem sequer tem a consciência pesada pela última asneira que fez... o raio da diabinha-da-tasmânia dorminhoca!]

 

 

 

rabiscado por catarina às 23:44
sinto-me: puf-puf.

 


 

 

 

[olha, olha... é a ponte sobre o tejo!]

 

 

[estão a ver essa cena aí alta? então agora vamos subir até ao 23º andar e espreitar a vista...]

 

 

[... xaran! e o cocktail é por minha conta!]

 

 

[um pouco dado ao narcisismo, o patito. mas fotogénico, o estupor!]

 

 

 

[sim, sim: eu sou muito dada a perseguir patos gigantes por florestas nórdicas encantadas.]

 

 

['TU-GAL! 'TU-GAL! 'TU-GAL!]

 

                                                                                                                      (foto por A.)

 

[acordem-me quando chegar setembro. a sério. só quando chegar setembro.]

rabiscado por catarina às 00:24
sinto-me: ... puf!
música: Better things - Massive attack

04
Jul 09

[... que é uma forma como outra qualquer de se estar pousada na vida.]

 

 

vou desfazer malas e desembrulhar saudades. espreitar a minha praia pelo cantinho do olho e estrafegar a minha alice com mimos até ambas nos termos perdoado a minha ausência.

 

e depois sim, talvez vos conte de quantos tempos se fez o meu tempo lá fora. entre as Imensas palestras e as fugas sorrateiras para o quarto vou-só-trabalhar-uma-a-duas-horinhas-gente-a-sério-junto-me-a-vocês-para-jantar-juro!, houve espaço para serões espreguiçados no Céu, para deambular [mais ou menos] às cegas pelas ruas da cidade, para sentir a relva do jardim botânico fazer coceguinhas pelo corpo inteiro, e até para sermos as únicas vozes a gritar um sentido "POR-TU-GAL! POR-TU-GAL!", enquanto os nossos rapazes encostavam a Bélgica às redes e nos sorriam, cúmplices...

 

PS: atenção à final, hoje, às 20:30 locais (19:30 na hora tuga): PORTUGAL-Eslovénia.

rabiscado por catarina às 12:01
sinto-me:
música: Water into wine - Cold Chisel

26
Jun 09

 

 

 

 

... mas é em trabalho, gente. com bocadinhos de trabalho no intervalo do trabalho.

 

férias, essas, vejo-as a anos luz de distância...

 

[suspiro... ]

 

até daqui a uma semana, num qualquer blog perto de si!

 

rabiscado por catarina às 19:21
música: Human Nature - Michael Jackson

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