Deolinda, bem alto.
olho em frente: na minha varanda, o Hibisco abriu duas das suas flores e agita levemente as suas pétalas com o vento norte. ao fundo, no mar, passa um barco de quando em vez. a minha Alice brinca com as folhas das Gardénias e inventa insectos que persegue incessantemente pelo ar.
ontem, fiquei parada à porta enquanto eles se iam embora. acenei enquanto a porta do elevador se fechava entre mim e as nossas gargalhadas. sentei-me um minuto no sofá, mas um toque no telemóvel recordou-me que o segurança tranca as portas todas às 11 da noite. saltei para o elevador com o meu enorme porta-chaves e aterrei no rés-do-chão, antes de eles terem tempo para decidir se era boa ideia esconderem-se todos nas escadas para me pregarem um susto. abri a porta com a chave, acenei mais uma vez. subi pelo elevador, corri para o meu quarto, abri a janela e fiquei debruçada na noite, a ver-vos partir. um casal para um carro, outro para o outro, uma troca que palavras que não percebo à distância, uma palmada no ombro, alguns pares de beijos, um aperto de mão. o vrumm-vrumm dos motores e depois só a noite e o meu mar. e, subitamente, atinge-me: o significado tremendo de amizades que duram há 17 e 12 anos. diacho. como eu gosto de vocês. até sou capaz de, por causa disso, mudar aquela fotografia que está na minha estante e que vocês teimam que é horrível, que eu sou a única que fiquei bem. ou então não. vou-vos contar um segredo: o que eu mais gosto naquela fotografia são as cores amareladas, gastas, comidas pelo sol. são os anos que passaram por ela enquanto nós crescíamos.
bebo o café aos golinhos pequeninos, como eu gosto de o beber. o telemóvel toca: ouço a voz* dos meus pais, perdidos de riso, depois de ouvirem o Dartacão que eu lhes enfiei no cd que fiz para lhes acompanhar as férias. Dartacão (Dartacão-Dartacão-cor-ren-do-gran-des-p'r
mais logo, vou jantar com o meu irmão e a minha cunhada. depois de mais logo, vou com o meu irmão ver o primeiro jogo do nosso Porto no Dragom.
alguém me liga só para me dizer que tem saudades minhas.
eu olho a minha tese, em cima da mesa de trabalho. e, pela primeira vez desde que a entreguei, sinto uma espécie de alívio, uma alegria própria de quem está prestes a encerrar um ciclo.
e sorrio, sozinha.
se perguntarem por mim, digam que estou feliz.
* não é um erro: os meus pais são dois, mas falam a uma só voz.