"It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes."

10
Abr 09

gosto de imaginar que existem sombras de vida que trocam passos e palavras debaixo de toda aquela imensidão de água. gosto de imaginar que não há morte nenhuma que valha o desaparecimento. deito-me sobre as rochas e escuto o diálogo líquido entre a pedra quente e o fundo que nos suporta. fecho os olhos e diante de mim desfilam pessoas, grandes e pequenas, de mãos dadas. os seus cabelos são sustentados por um ondular suave de água doce, e dos seus braços nus surgem escamas de eternidade.

existem os abandonos.

e depois, existem os restos de nós que reencontramos a cada passo.

 


 

 

[fábula da Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias e dos Tolos-Que-N’Ela-Confiavam.

era uma vez uma Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias e os Tolos-Que-N’Ela-Confiavam. a Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias e os Tolos-Que-N’Ela-Confiavam viviam num belo reino que havia nascido de teimosas encostas de granito banhadas por um imenso rio que, durante o dia, servia de abrigo a imensas tainhas saudavelmente saltitantes e, ao cair do sol, adquiria uma tonalidade dourada que lhe havia valido o seu nome: era o Rio De Ouro. este reino majestoso era governado por um honesto rei, o Pinto da Costa, que possuía como único defeito uma queda absolutamente incompreensível para princesas de vida fácil que não declaravam IRS. a seu lado, responsável pela táctica dos seus valorosos deuses guerreiros, o príncipe Jesualdo cuidava de manter intocável a mentalidade vencedora e o orgulho infinito de todos quantos ali habitavam de alma e coração. a Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias e os Tolos-Que-N’Ela-Confiavam viviam muito felizes.

num certo dia de primavera, a Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias e os Tolos-Que-N’Ela-Confiavam resolveram partir à caça de gambozinos. com os seus cavalos bem atestados e os seus GPSs portáteis amarrados ao pulso, lá partiram para um paraíso não muito longíquo do reino e chamado Gerês. a meio da caça, tendo já metido um gambozino ao saco e apanhado um belo pato que castigaram animadamente num divertido almoço, um Tolo-Que-N’Ela-Confiava chamou pela Bióloga-Distraída-que-Curte-Mais-Bactérias:

- ó mana, ó mana, olhai lá uma pequena cobra. como ela é engraçada! a mana, com toda a sua sapiência científica, saber-me-á por acaso dizer que belo espécime é este que eu aqui me encontro a observar?

a Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias aproximou-se e debruçou-se sobre o escamoso rastejante:

- pois que belo animal aqui haveis encontrado, meu estimado irmão. olhai, olhai – disse então a Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias para os restantes Tolos-Que-N’Ela-Confiavam – que belo réptil aqui temos para o jantar.

e todos os Tolos-Que-N’Ela-Confiavam se aproximaram, curiosos, e formaram um círculo observador em torno do belo animal.

enquanto isto, dentro do cérebro da Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias, o neurónio Tico espreguiçava-se longamente, deixando escapar os últimos resquícios de sono num bocejo prolongado. calçou os chinelos de quarto, vestiu o roupão, e arrastou-se até aos olhos da Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias para ver o que se estava a passar. surpreendido pela visão do olho esquerdo, logo correu a acordar o Teco, excitadíssimo:

- acorda, pá, acorda! olha que a gaja não está a ler aqueles artigos científicos chatos! acorda, hoje temos férias!

o neurónio Teco, ainda tonto pelo súbito acordar – o Teco sofria há já muitos anos de tensão baixa pelo que, após consulta médica, foi aconselhado a fazer todo e qualquer movimento sempre com muita calma e muito devagar – lá ocupou  a sua posição aos comandos do olho direito.

- ena, Tico, tinhas razão! não é que a gaja não está a trabalhar?! ena, que divertido!

o Tico retrucou, ainda excitado:

- e já viste que belo espécime rastejante aqui temos? tão fofinha, com a sua cabecinha triangular…

- … e narizinho arrebitado, topa lá! – acrescentou o Teco – e quer brincadeira: repara como põe activamente a língua de fora! está a fazer caretas!

- que engraçado, ó Teco: este tipo de comportamento associado a este corpinho laroca está-me a fazer lembrar qualquer coisinha que aprendemos a conhecer algures durante o curso, mas não estou bem a ver… - disse o neurónio Tico, enquanto coçava as suas dendrites.

o neurónio Teco irritou-se levemente:

- como és alarmista, meu caro Tico. daqui a pouco ainda me vens cá dizer que isto é uma Vipera latastei, não?

e eis que um silêncio profundo se instalou entre os dois neurónios da Bióloga-Distraída-Que-Curtia-Mais-Bactérias, cada um no seu olho e absorvido pelos seus pensamentos. até que um grito irrompe pelo cérebro, fazendo eco nas paredes nuas:

- Tico… isto É uma Vipera latastei! rápido: vai ali dar ordem às pernas para fugirem ! mas sem movimentos bruscos, que esta gaja ataca!!

- mas, Teco, e os outros Tolos-Que-N’Ela-Confiam?

o Teco suspirou, algo agastado:

- eu vou ali dar corda à língua, que não exige grande esforço. já sabes o que o médico que disse, não posso fazer grandes esforços. agora tu, xispa para as pernocas! xô, xô.

e foi assim que a Bióloga-Distraída-Que-Curte-Mais-Bactérias, ainda a trocar os olhos, conseguiu alertar a tempo todos os Tolos-Que-N’Ela-Confiavam e garantir que o clã escapava ileso a uma mordida da dita cuja rastejante. e foram todos felizes para sempre. fim.]

 

como qualquer fábula, isto tem algures uma lição de moral. mas não estou bem a ver qual é, nem posso agora perder tempo com isso: tenham lá paciência, mas tenho uma tese sobre bactérias para escrever.  

 

rabiscado por catarina às 13:13
sinto-me:

3 reclamações:
Ah pois era só uma viborazeca. Tenho essa história toda em vídeo, inclusivamente a parte em que tu estiveste uns 2 minutos a tentar tirar uma fotografia a escassos centímetros da língua bífida desse animal pouco sociável...
Já agora, grande Porto, na próxima quarta-feira vou fazer 300 km só para ver o jogo contra os bifes, sou pouco tolo sou...
Mano a 10 de Abril de 2009 às 23:26

diacho... não mordeu ninguém, pois não? então caluda! e se mordesse, também não era assim grave... era só transportar a pessoa para o hospital, onde lhe vigiariam os sinais vitais durante uns dias, já que não existe antídoto... diz que as dores são insuportáveis, mas ei, esta gente é muito exagerada... e nem costuma ser fatal nem nada: só para idosos, crianças ou pessoas muito debilitadas...

Além disso, se fosse preciso arrancar um braço ou uma perna, também qual seria o problema? Temos 2 de cada, é bués...
Mano a 10 de Abril de 2009 às 23:56

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