"It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes."

14
Abr 09

 

Can you hear the drums, Fernando?


I remember long ago another starry night like this.

 

conto os dias, as horas, as demoras: falta pouco. um aperto meigo no peito, do lado esquerdo quem sobe, segreda-me uma esperança ritmada e constante. arrumo o cabelo atrás da orelha num gesto rápido e mecânico, nas pontas dos dedos trago um nervoso miudinho que me faz sorrir por nada e por tudo. fecho os olhos e, por dentro do escuro sem fim das minhas pálpebras, surge o relvado do Dragão, imponente e pleno como só ele sabe ser. e de repente, hoje já não é hoje. de repente, o meu corpo afunda-se na luz branca do meu sofá e materializa-se inteiro no meu lugar junto ao palco dos deuses. um vento agreste do norte brinca com o meu cabelo e eu quedo-me naquele espanto sempre renovado: o quanto de mim é feito de ventania e sotaque carregado, horizontes longíquos e alma suada. cumprimento os vizinhos do costume, que entretanto vão chegando, com um sorriso largo como o compasso audível do meu coração. verifico o nó do cachecol no pulso esquerdo, enrolo os dedos na ponta da camisola, procuro o teu olhar e sorrio uma vez mais, agora só para nós dois.

 

They were closer now, Fernando

Every hour, every minute seemed to last eternally.

 

de todas as impaciências, é esta a que me morde mais os nervos: aqueles minutos de espera, aqueles minutos que nem sequer passam porque só existem dentro do balneário, onde as vozes se elevam e trepam pelas paredes sempre em busca daquele orgulho, daquela fome, daquele Mundo. falo contigo de coisa nenhuma, tento enganar o formigueiro de emoções que lavra no meu peito. a saber que vais fazer uma careta e mandar-me calar (“cantas bem tu, cantas!”), desato a trautear a música que me enviaste por e-mail poucas horas depois do jogo da primeira mão, "dedicada ao homem do jogo":

 

I was so afraid, Fernando

We were young and full of life and none of us prepared to die…

And I’m not ashamed to say

The roar of guns and cannons almost made me cry.

 

apetece-me imenso rir e não sei bem porquê. nunca estamos exactamente preparados para cair, pois não? mas há aquela magia doce no cair de pé. aquela dor meiga de quem lutou até ao limite das forças, e mais um pouco ainda, de quem acreditou, de quem foi sempre igual a si próprio. não falo de vitórias morais: sabes bem que essas me cansam, me agastam. falo deste orgulho tão poderoso que parece querer rebentar e abrir uma ferida de vida mesmo a meio do meu peito. falo desta vontade de ser maior – falo deste Ser maior.

 

I can see it in your eyes

How proud you were to fight for freedom in this land.

 

[e sabes, nada mais me importa. nada. durante anos deixei-me irritar e consumir por quem confunde grandiosidade com corrupção. agastei-me em trocas de palavras que embateram contra o enorme muro da surdez. queriam justiça: a justiça assumiu. mas agora, e depois das decisões tomadas, a justiça já não presta. querem que seja verdade o testemunho de quem conta que entregou um envelope a um árbitro com uma determinada quantia de dinheiro, que depois já não tinha entregue o envelope mas apenas assistido à transação, e depois já não tinha assistido à transação mas ouvido falar por uma porta fechada, e depois já não tinha a certeza quanto dinheiro estava dentro do envelope, e depois já não tinha bem a certeza se era dinheiro mas era capaz de jurar a pés juntos e sobre a bíblia que sentiu o aroma a notas de 50 euros no ar. querem acreditar no testemunho de uma pessoa que durante dois anos acusou de mentirosa a outra, e certa madrugada entrou esbaforida pela porta do MP e assinou um documento a dizer que, afinal, a mentirosa era ela. querem que as famosas escutas telefónicas ao Pinto da Costa sejam devidamente punidas, enquanto deixam as igualmente graves feitas ao Luís Filipe Vieira caírem no esquecimento (um “esse pode ser!” ao terceiro nome de árbitro que se escuta na insuspeita voz que suporta o diálogo do outro lado da linha). querem que encontros às tantas da noite em hóteis de Cascais entre a tal que tem nome de fruto seco – e haverá, em todo este país, alguém com a alma mais ressequida do que ela? – e a juíza de instrução criminal que abriu os processos do apito dourado seja perfeitamente inocente. eles querem tanta coisa. não sei que mais eles querem.

vou-te contar um segredo: culpas, terão todos os grandes e em partes idênticas. mas há quem se esforce mais a apontar o dedo aos outros do que a olhar para dentro e resolver os problemas pela base: melhorar a qualidade do seu futebol. por isso, não me interessa. estou cansada. deixá-los a acreditar no que quiserem acreditar. esta noite é só nossa, e só nós conhecemos a grandiosidade pelo lado de dentro.]

 

There was something in the air that night

The stars were bright, Fernando.

They were shining there for you and me

For liberty, Fernando.

 

por isso, esta noite, nada mais interessa. apenas os nossos deuses, os que vestem de azul e branco. apenas sairmos daqui de cabeça erguida, independentemente do resultado, com a certeza de que não ficou nenhum centímetro de relva sem ser pisado, suado, arranhado-arrancado-desejado. acenar aos ingleses, à entrada e à saída – talvez desta vez troque a minha camisola por uma dos adeptos dos nossos adversários, que dizes? os costumeiros acenos e sorrisos de quem sabe viver o futebol pelo futebol, de quem se sente orgulhoso por estar ali, por ter chegado até ali, por ser quem é. por isso, e esta noite, só o futebol interessa. só o desporto conta.

 

I could hear the distant drums

And sounds of bugle calls were coming from afar

 

 

quatro patitas saltam para cima das minhas pernas, uma cabecinha peluda dá-me uma marradinha no queixo, e eu abro os olhos, como quem acorda. e de repente, hoje já é hoje outra vez. conto os dias, as horas, as demoras. falta pouco, mas ainda esse pouco teima em permanecer. sacudo o cabelo, pouso os dedos sobre o dorso peludo que entretanto se instalou no meu colo, olho pela janela e sorrio. à minha frente, um vidro de 5 metros e 14 cm de comprimento rasga a parede e inunda-me de mar o quarto. sou assim, eu: gosto de coisas rasgadas, de horizontes infinitos, de luminosidades absurdas e de todos os tons de azul.  

 

 

UPDATE - 09Ab15, 23:34

conduzo para casa, por entre a chuva e o desânimo. desligo o rádio, aborrecida: oscilo entre a tristeza e frustação. estou cansada, adoentada, dói-me o corpo, e o asfalto parece que nasce continuamente debaixo de mim. ao menos se a chuva parasse... acciono o limpa pára-brisas e cravo as duas mãos no volante. tento concentrar-me na noite que passa a correr pelos vidros laterais do meu carro. e, de repente, parece-me ouvir algo. uma voz, sei lá. um sussurro. atento no som: meigo, muito ao de leve, quase uma carícia. diminuo para quarta, encosto à faixa da direita. procuro-o e ele surge-me, novamente: é um fio de voz. percebo, pasmada, que ele nasce de uma fresta tímida dos meus lábios. tento perceber o que ele diz, com cuidado. parece-me ouvir: but it's been no bed of roses/ no pleasure cruise. será? poderá ser? e ele, novamente, o meu fio de voz: I consider it a challenge before the whole human race and I ain't gonna loose. e então percebo. percebo-me. procuro o meu olhar no retrovisor e sorrio. e deixo sair, agora a plenos pulmões: we are the champions, my friend/ and we'll keep on fighting 'till the end. 

 

de pé. foi de pé que caímos, rosto erguido contra o vento.

e cada instante valeu a pena. cada instante.

valeu.

a pena.

[mesmo a lágrima teimosa, o pedacinho de alma que não soube esconder.]

 

porque só um Campeão sabe cair assim.

rabiscado por catarina às 19:34
sinto-me:

5 reclamações:
Que saudades tinha eu destes posts que enchem a alma de Dragão :) depois de Meireles, agora é a vez de Fernando, pelo menos este é parecido com o Obama e tem direito a uma canção LOL.

Saí do Estádio triste, um pouco conformado,( aquele menino que jogou aqui deixou-me umas saudades,que jogão do Anderson) mas com um sentimento de alma cheia, orgulho e amor redobrado por ter escolhido amar aquele clube, isto é, se é que escolhemos amar alguém, neste caso, um clube. Agora venham as festas que se seguem, que vão ser a dobrar :)
Ricardo a 16 de Abril de 2009 às 21:51

Ai... as saudades que eu tinha de te ler...
Gosto tanto!
Mesmo quando falas do teu Porto!

@-,--
Sandrinha a 20 de Abril de 2009 às 12:03

Só agora li o post, mana! Sabes que estive sem net a semana passada, lá em Leiria.
A minha viagem de volta até Leiria não foi com os Queen, mas sim com Ena Pá 2000 aos berros pelo meio da chuva... O grande hit da noite foi mesmo a faixa 18 do álbum "2001 Odisseia no Chaço", e quem quiser saber o nome que vá googlar...
Vou tentar no próximo Domingo sair cedo de Tomar para deixar a mais-que-tudo em Coimbra e ainda ir ao Porto para podermos ir os dois ver o jogo ao estádio, isto se quiseres claro!

Beijinho mana
O Tal Ivan a 21 de Abril de 2009 às 00:22

LOL!
'bora lá, rumo ao tetra!!!;)

qualquer dia a mais que tudo é que espanca, mas ok:)

catarina a 21 de Abril de 2009 às 12:12

às vezes eu descubro blogs fantásticos; outras vezes blogs fantásticos descobrem o meu :)

gostei tudo. tanto. íssimo!
marta a 17 de Junho de 2009 às 14:44

Abril 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24

27
29
30


subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO