"It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes."

10
Jan 10

E agora tenho uma confissão a fazer. Coisa feia, como se adivinha. Daquelas que me fazem enrolar a perna esquerda na perna direita, cruzar os dedos e olhar para o chão – vergonha. Eu tenho um cabelo branco. Melhor: eu tinha um cabelo branco. Surgiu assim, sem avisar que vinha, do meio do nada, instalou-se no meio dos castanhos e por lá se deixou ficar. Eu olhei: “não pode ser”. E outra vez: “não pode ser”. Mas era. E branco. “Rais me partam.” E teimava em estar lá, todas as manhãs, radiante na sua diferença. E teimava em estar lá, em murmurar-me baixinho: também envelheces, criatura. O tempo também te rói a pele e o olhar. E o que não soubeste viver não volta: já foi. Também envelheces, criatura. Julgavas que o tempo te ia ser sempre leve? Também envelheces, criatura. E eu, a olhar para o espelho, a antecipar as rugas miudinhas que me irão desenhar o olhar. E eu, a olhar para o espelho, a antecipar as rugas maiores que me irão desenhar o sorriso. E eu, criatura, a perceber que também envelheço. E eu a não querer envelhecer, eu a querer ter sempre 22 anos, eu a querer sentar-me sempre em frente ao pc com as pernas cruzadas à chinês, como estou agora. Eu a querer “morrer por ser preciso/mas nunca por chegar ao fim”. E eu, finalmente, com uma única certeza: ainda tenho demasiadas coisas no passado das quais me arrependo para já começar a ter cabelos brancos. E arranquei-o. Já está: estava farta dos seus murmúrios, farta das rugas que ainda não tenho, farta de sentir o tempo a pesar-me. Arranquei-o: deixem-me prolongar esta minha ilusão de eternidade por mais uns instantes. Ainda que eu já saiba à partida que ela é limitada. Ela: a ilusão ou a eternidade. Tanto faz.

 

Umea, 11 de junho de 2005. foi quando eu escrevi isto, algures no meio de uma das minhas intermináveis "Crónicas do Círculo Polar". uma espécie de never-endind-story contada entre os sussurros da distância. lembrei-me disto na semana que passou. de manhã, na casa de banho, enquanto secava o cabelo. à pressa, sem tempo e sem espírito, com a alma engasgada nos sonhos que não tive. e foi então que o vi: entre o mar castanho, desorganizado e apressado. lá estava ele, tímido, pequeno, algo insolente: o meu cabelo branco voltou. por momentos, pensei que fosse uma confusão da luz. a Luz confunde-se, por vezes. pensei que fosse uma ilusão do brilho. procurei com mais cuidado: lá está ele. inconfudível, único, exactamente o mesmo. o meu mal-tratado cabelo branco que voltou a vida.

senti um início de raiva na ponta dos dedos. um nervoso miudiunho que me estrangulou os movimentos.

lembrei-me de uma conversa que tinha tido com um aluno de mestrado no início da semana. o rapaz insistia em tratar-me na terceira pessoa, hábito que me custou a corrigir. finalmente, ele confessou: "é difícil. por defeito, trato por você todas as pessoas que acredito serem mais velhas do que eu. e eu só tenho 20 anos, por isso...". eu saltei na cadeira: "diacho, só tenho mais 5 anos que tu!". mas, e de repente, fez-se luz: "espera, estamos em 2009, não é?". "2010", responde ele, solícito. o pequeno estupor. quando eu tinha a idade dele, também sabia instantaneamente a data actual sem precisar de pensar. "ah...." e contei pelos dedos, para ter a certeza - "então sou 7 anos mais velha que tu! mas isso não faz de mim potencial tua mãe, por isso é favor usar a segunda pessoa do singular, boa?".

hoje, andei à procura do dito cujo cabelo branco. mais calma, apertei-o entre o polegar e o indicador, para sentir as rugosidades de sua teimosia. por momentos, estive quase a arrancá-lo. mas depois, cresceu em mim um certo carinho por aquele sobrevivente. um cuidado maternal. decidi não o arrancar. decidi chamar-lhe anástacio. decidi aceitá-lo.

 

diacho: afinal de contas, e se estivermos efectivamente em 2010, eu tenho 27 anos. de resto, duvido que algum dia deixe te ter demasiadas coisas no meu passado de que me arrependo. e assim como assim, o anastácio até tem uma certa piada com a sua insolência teimosa.

rabiscado por catarina às 18:01
sinto-me:
música: noticiário da SicN

2 reclamações:
Anastácio? LOL!
Olha eu já devo ter uma manada deles! O que é bom, quer dizer que pelo menos não sou completamente careca! :P
Tiago Santos a 10 de Janeiro de 2010 às 19:52

gosto tanto de te ler!
marta a 28 de Janeiro de 2010 às 17:10

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