"It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes."

16
Mai 09

lembro-me bem do meu primeiro festival Eurovisão da canção passado em terras suecas. o meu espanto, o meu erguer de sobrancelhas incrédulo: mas nós vamos MESMO ver o festival da canção hoje à noite? não podemos ir beber um copo ou…? e a resposta, entre o ofendido e o intransigente, claro que não. não queres ver o festival? eu bem sei que Portugal não entra na final, mas diacho, é o festival! O festival! e eu, sem saber se havia de rir ou inventar uma súbita carga de trabalhos que me retivesse no meu cantinho naquele serão de sábado à noite. optei pela sinceridade: que gostava do festival quando era pequenina. que tempos houve em que Portugal efectivamente participava com músicas belíssimas e cheias de alma – tempos esses que antecederam mesmo o eu ser pequenina. mas que não via o festival há anos. a maior parte das vezes, só por coincidência conhecia a participação portuguesa. à qual, de resto e invariavelmente, não achava piada nenhuma. que não estava mesmo interessada em ver. que não me dizia nada. a sério, malta, o festival não: não é o meu estilo. eles olharam para mim com aquela expressão que me irritava profundamente e que haveriam de usar muitas mais vezes, como se eu fosse um gatinho abandonado que desconhecesse o divinal prazer de me deitar com a barriga ao sol. agora é que vais ver mesmo. e sentaram-me no lugar de honra, mesmo no meio do sofá. não vais a lado nenhum. não tive coragem de contrariar tanta alegria e certeza no fundo daqueles olhos azuis. que de resto, eram muitos. e eu era só um par de castanhos.

lembro-me bem do meu primeiro festival Eurovisão da canção passado em terras suecas. ri-me, diverti-me, acompanhei refrões com palmas e cantei em línguas cuja existência desconhecia completamente. e percebi que tudo é válido para nos fazer vibrar, sofrer, rir e chorar. mesmo o festival da canção. que as emoções nos fazem bem à alma e as gargalhadas à pele.

mais dois festivais haveriam de vir, com todas as semi-finais pelo meio. e eu assisti a todos: nem sempre no meio do sofá (nem sempre naquele sofá) e partilhei-os a todos.

de volta a Portugal, quase 3 anos depois, um novo motivo surge para enquadrar o meu rabo no sofá durante as horas sem fim que dura o festival: uma prestação portuguesa da qual realmente me orgulho. a música que vale por ela própria e não pelo tamanho das mamas da performer. a musicalidade muito portuguesa, com uma alegria discreta e um travo a saudade que me faz sorrir. hoje, desligo todos os restos de elitismo que às vezes encontro nos meus gostos musicais. hoje é dia de festival. ainda passarei antes pela casa da música, e depois… bem, depois vou reencontrar o divinal prazer que é deitar-me com a barriga ao sol. ainda que a esta latitude e às oito da noite já quase não haja sol: um pedaço pequenino do meu coração ficou lá, encravado para os lados do círculo polar. e hoje deu-me para as saudades.

a culpa é do festival.

 

 

Sou a voz
Do coração
Numa carta
Aberta ao mundo
Sou o espelho
D’emoção
Do teu olhar
Profundo
Sou um todo
Num instante
Corpo dado
Em jeito amante
Sou o tempo
Que não passa
Quando a saudade
Me abraça

 

UPDATE - 17/Maio/2009, 13:02
no final do desfile das canções, uma sms para um outro maluquinho: vou botar na noruega, carago! e tu?. a resposta não tardou: também :p

claro! afinal de contas, somos ambos pessoas de bom gosto!

a nossa eleita acabou por vencer, destacadíssima e com inteira justiça. a música é bem-disposta e contagiante, tal como se exige a uma música de festival: a coreografia é belíssima e até as back vocals estiveram perfeitas. seria escusado aquela cena do olhem-para-mim-a-fazer-de-conta-que-toco-violino, mas ei: quem resiste àquele sorriso doce, àquele coçar-a-testa inocente, àquele brilho infantil no olhar? se falhasse tudo o resto, restava o ser efectivamente um músico completo: o único que compôs a letra & melodia da música que apresentou.

 

Portugal caiu para o meio da tabela. a contrastar com a justiça inegável do vencedor, esta posição é claramente injusta para as nossas ruas do amor. mas entre tanto voto hormonal e/ou político (Espanha recebeu 12 pontos de Andorra, num total de... 23!), mais não seria de esperar.

 

 

 

No one else could make me sadder
But no one else could lift me high above

 

rabiscado por catarina às 15:32
sinto-me:
música: Todas as ruas do amor - Flor-de-Lis

11
Mai 09

ainda arrepia.

 

quase 24 horas depois, ainda respira debaixo da pele aquele bestial desassossego da vitória. de mais uma vitória. de mais um risquinho.

quase 24 horas depois, ainda treme. ainda faz tremer.

quase 24 horas depois de me terem estendido um cachecol "é para o tretra, menina, é para o tretra" [assim mesmo, erres a mais mas não faz mal que a gente cá se entende] e os meus passos a fugirem para o estádio "ainda não, ainda não, só no fim do jogo". sei lá eu agora distinguir a ansiedade do medo, o orgulho do desejo.

quase 24 horas depois e ainda cerro os punhos, concentrada. porque já és crescida, catarina, porque não chores, catarina, porque que vergonha, catarina, porque é só futebol, catarina, porque não chores outra vez, catarina.

e a catarina morde o lábio até doer. até sangrar. porque 24 horas depois e ainda arrepia ainda respira ainda treme ainda faz tremer.

e de tudo, finalmente, o segredo assim revelado: o companheirismo, a solidariedade, a amizade. o humor. a união. a Equipa.

 

 

rabiscado por catarina às 20:36
sinto-me:

05
Mai 09

não é que esteja cansada. nem sequer desgastada. é só que criei este jeitinho de ser quieta, de moer silêncio. quando me olhas e me vês parada, desconheces-me. eu teço rugas dentro das minhas rugas, como quem se embala no tempo. esqueci as palavras no sótão da minha vida, agora falo com a pele. baixinho, porque pouca gente quer ouvir os meus caminhos.

e um dia, quando morrer, vou ser uma pedra. a eternidade em forma parada.

rabiscado por catarina às 00:16
música: Tudo - Milton Nascimento

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